| alentejo |
[Apr. 14th, 2009|02:19 pm] |
| [ | sounds like |
| | nicola conte apresenta rosália de souza - maria moita | ] |
sentamo-nos na esplanada do café. um café que ocupa o espaço que antes foi o de uma escola primária. agora tem por dentro, na primeira sala, um balcão de madeira. atrás só se vêm à venda maços de tabaco e garrafas. para a esquerda, uma sala enorme - onde antes se davam as aulas - onde se estendem mesas, como num casamento, cobertas por toalhas daquelas de plástico, e com uma televisão a dar o som de fundo. a esplanada é uma mesa de madeira, muito velha, e algumas cadeiras - também de madeira, daquelas de cozinha - espalhadas. sentamo-nos ao lado de um senhor velhote que só veio morar para o monte guerreiro há cerca de um ano. porque lá moram os filhos e o senhor, de certeza, perdeu a mulher e ficou sozinho. era de algum outro monte. e não parece muito feliz por estar aqui. trabalhou em lisboa, em alcântara, muitos anos, a descarregar navios. começa a falar da guerra e dos que vinham de lá, nos navios, a chorar. "para lá ninguém chorava. no regresso vinham todos a chorar". pois, comentamos nós, depois de viverem tudo aquilo... não é fácil. e devem vir com saudades da família. ao meu lado, o sr. eduardo, do café, senta-se muito encolhido - é magrito, o velhote, com óculos e roupa larga - a tirar com uma navalha a porcaria debaixo das unhas. tem um ar tão pequeno e tão frágil. quero-lhe tirar uma fotografia mas não tenho coragem. fotografo as mãos do primeiro senhor, o que trabalhou em alcântara, agarrado ao cajado. aqui as pessoas são muito sozinhas e alegram-se por ver gente nova. nova de idade e nova por ali. "o problema aqui é que não há trabalho". toda a gente foge do alentejo e permite este milagre - tanta tanta tanta terra, a perder de vista, sem nenhuma construção, sem nada. montes, montes, montes e planície. a perder de vista em todas as direcções. como é que é possível, com tanta gente amontoada nas cidades. é que não há trabalho. há uns poucos de rebanhos, e algumas hortas - poucas, que aqui é só rocha - e pronto. nada mais. ficam os velhos, saem os novos. por um lado é triste. mas por outro, não deixo de pensar, que beleza que assim se permite, que privilégio. que bom era que se conservassem montes assim por todo o país, por todo o mundo. que bom era que daqui a muitos anos outros, como eu, pudessem atravessar estes montes vazios como eu atravesso. |
|
|
| (no subject) |
[Feb. 5th, 2009|11:37 am] |
| [ | sounds like |
| | van morrison - dancing in the moonlight! | ] |
 era um bailarico de gaitas, pífaros e fraitas e dançámos até não poder mais.... e se não pudéssemos dançar, não seria esta a nossa revolução. há momentos em que sim, podemos esquecer que a vida é real com os seus problemas e chatices, impossibilidades e injustiças, e fingir que todos os que partem regressarão, que basta dançar e abrir os braços para ser feliz, que basta viver um dia de cada vez. e eu ando a esforçar-me comó caralho para não pensar em amanhã. |
|
|
| maps |
[Jan. 28th, 2009|03:27 pm] |
tínhamos percebido que a nossa viagem não passava já de uma obrigação. sair de casa e do país, percorrer o mundo, ver coisas inigualáveis, tudo isso deixava de fazer sentido à medida que deixávamos de estar apaixonados. mas não podíamos voltar para trás, despedirmo-nos com um abraço constrangedor e um "vemo-nos por aí", assumindo a brutal derrota de voltar a casa com uma experiência triste às costas. não, as coisas teriam de dar uma volta e desembocar numa qualquer experiência avassaladora, ainda que isso nos separasse e nos enviasse para continentes diferentes, ou nos colocasse numa situação de vida ou morte, ou nos exigisse um olhar diferente no coração. só aí, numa manhã em que acordássemos sentindo que tudo tinha valho a pena, poderíamos ir embora. mas as fronteiras seguiam-se, umas atrás das outras, e nada de diferente acontecia, nenhuma paisagem nos fazia estremecer. os cafés da manhã eram silenciosos, a carrinha arrancava para mais um passeio, ou para os campos de fruta onde íamos trabalhando, e eu agarrava o mapa com força e estudava todas as estradas para não ter de pensar no meu próprio silêncio. e um dia, estávamos sentados numa praia de inverno, tu fotografavas e eu lia. vieste-te sentar ao meu lado, assim bem pertinho, e eu pus o meu braço à tua volta, à espera de sentir, a algum momento, o carinho inundar-me ou apenas a atracção física a funcionar. tu disseste-me "sabes, ando a pensar numa coisa". pensei, isto vai acontecer. ele quer falar sobre isto, vai dizer que devemos regressar, vai dizer que assim não faz sentido, vai dizer que deixou de me amar. disseste "quero seguir para a croácia. há lá uma comunidade religiosa de que um amigo me falou, acho que é uma coisa bastante relaxada, que parte do cristianismo na perspectiva mais messiânica e que tem vindo a desenvolver rituais alternativos, formas diferentes de encarar a coisa... quero experimentar mas tenho de ir sozinho." parecias nervoso, fitavas-me, percebi que não querias parecer agressivo e enrolavas a mão uma na outra de forma extremamente irritante. olhei em frente para o mar durante uns segundos, paralisei de surpresa, depois senti uma onda de alívio a passar por mim e acabei com um riso tonto de quem até acha piada à súbita revelação espiritual. "não sei o que te diga. mas fico contente por ti e espero que te divirtas. posso arrancar de comboio para baixo e chego a casa em dois dias." olhei-o e percebi que nos fitávamos nos olhos como não acontecia há meses. por outra via, havíamos resolvido um aperto de coração que nos perseguia e sem que isso fosse falado, os nossos olhos acenavam entre si e compreendiam a necessidade que tínhamos de nos afastar, de seguir caminhos diferentes, e ao mesmo tempo sorríamos, porque nos invadíamos de um alívio ridículo. na manhã seguinte, acordei com a sensação de que algo de avassalador tinha acontecido e que podia regressar sem frustração. senti-me até ansiosa pela viagem de comboio, pela solidão da leitura ao som das linhas de ferro, pelas paisagens a correr de caminho a casa. |
|
|
| (no subject) |
[Jan. 22nd, 2009|12:06 pm] |
| [ | sounds like |
| | Stacey Kent | ] |
ontem apercebi-me que alguém passar pela perda de uma relação e de dois cisos, na mesma semana, não é fácil. foi suficiente para me fazer largar o estudo e ir passear a bochecha inchada da vítima e um tupperware de sopa. depois disso, já não havia volta a dar, e acabei no "palco aberto" do onda jazz a transmitir para a RDP África, ah, e dois dos filmes que quero ir ver ao cinema estão - com legendas em português - no portátil de um amigo meu.
ontem conversava com uma amiga e apercebia-me da quantidade de "poesia lamechas" que estou a acumular no meu discurso, com isto tudo de estar apaixonada, de achar que a vida me corre bem e de me estar a preparar para ir para uma favela, realizadíssima com a minha vida e contente apenas por existir. acordei com uma grande dor de cabeça, e ainda por cima está a chover, mas, incrível, continuo a achar que a vida é boa. e o meu last.FM agora canta "they can't take that away from me".
|
|
|
| obrigada |
[Jan. 15th, 2009|10:57 am] |
durante aqueles tempos, conhecemos a liberdade de ser crianças crescidas a tomar decisões. de sabermos que o mínimo da existência - o estar vivo, apenas - é já a existência em pleno. a grande casa de campo, repleta de memórias antigas e de mobília clássica, de paredes escritas, pintadas e sarapintadas, de divisões atrás de divisões, labiríntica e de luzes amareladas, recebia constantemente jantares, visitas, músicos, malabaristas, trapezistas e escritores, pensadores e esotéricos, bancárias adultas e adolescentes perdidos. a sala de jantar prolongava conversas até de madrugada sobre a História e as suas diferentes percepções, sobre as elites e a Economia, sobre o dia-a-dia e a beleza do quotidiano. albergava sessões de música embriagadas com instrumentos reinventados: guitarras, maracas, xilofones, garrafas de água de litro, palmas e vozes. as muitas camas da casa recebiam corpos cansados e sempre diferentes, que no dia seguinte seguiam para a sua vida catarticamente, sabendo que haviam conhecido a liberdade de ser crianças, crianças conscientes de que «já valeu a pena ter nascido apenas para sentir passar o vento».
|
|
|
| ainda sobre o amor |
[Jan. 6th, 2009|01:35 pm] |
2009 começou comigo a perceber que às vezes as coisas que são naturais, como o amor, têm mesmo de dar luta e trabalho e de ser construídas. como dissémos, tu és *quase* o melhor namorado do mundo e eu sou *quase* a melhor namorada do mundo. estamos a fazer por isso sem sacrifícios e com prazer pelas pequenas descobertas, pelas coisas que aprendo que não gostas e pelas coisas que aprendes a não me fazer. mas estás a arrebatar-me cada vez mais pelo caminho.
porque não queres saber de mais nada senão de estar comigo e estou à frente de quase tudo (sim, isto também pode ser mau) e meu deus, que sorte que tenho, porque claro que continuamos a saber medir as coisas mas sabemos que o sentimento é este, é este disparate, é este exagero, é este não-querer-mais-nada-senão-isto. porque quando eu falo em ir embora daqui tu dizes "eu vou contigo", porque me olhas como se eu fosse a única mulher à face da terra e porque me fazes sentir como se fosse mesmo, porque vais aos meus jantares de família sem medo de conhecer as minhas avós e acabas por ir dar voltas sozinho com o meu pai e ficas à mesa de conversa com os meus tios, porque gostas de me levar a visitar a tua mãe e até me mostras fotografias de quando eras pequenino e todas estas parolices familiares e estupidamente sérias me parecem divertidas e sexys.
porque és um homem com uma vida tramada e isso me faz querer tomar conta de ti. proteger-te e barrar-te com protector solar quando estivermos na praia.
|
|
|
| (no subject) |
[Dec. 29th, 2008|12:45 pm] |
| [ | sounds like |
| | kings of convenience | ] |
fico feliz por acordar contigo e passo o dia feliz por saber que estarás lá quando eu chegar. e percebo que afinal, quando não estás comigo, as coisas não são tão bonitas. |
|
|
| o que fazemos quando chega aquela altura em que dizemos "vamos fugir"? |
[Dec. 23rd, 2008|04:13 pm] |
porque eu queria um rapaz bem-disposto que não desse murros nas portas por estar sem trocos. que tivesse aquela coisa das boas energias e bla bla, sem ser muito zen e budista porque isso às vezes já é um bocado irritante. e, claro, tem sempre de haver um certo ar de porco, feio e mau, porque meninos muito branquinhos com mãos de princesa não me acendem a fogueirinha. e nós lá demos uns beijinhos muito interessantes e adormecemos juntos e quando acordámos comemos uvas e fingimos que não se tinha passado nada, embora se tornasse evidente que tínhamos de passar o resto do fim-de-semana juntos.
depois vim a perceber que ele até vai comigo ouvir música tonta, daquela que ele não gosta, sem se importar com isso. vai comigo ver filmes franceses e sai com os meus amigos. nunca se chateia com o trânsito nem com as coisas que insistem em nos cair das mãos, é paciente comigo e com as minhas conversas sobre o trabalho e sobre as frustrações, mesmo quando eu sei que ele não está a perceber nada mas faz questão de me ouvir. de forma muito sexy, a sua sensibilidade não salta nada à vista. parece um reguila meio cabrão. andei uns tempos a enganar-me a mim própria com a conversa do "amigo colorido", até que comecei a achar que estava apanhadíssima. e não me enganei. |
|
|
| girls night in |
[Dec. 12th, 2008|03:14 pm] |
| [ | sounds like |
| | kumpania algazarra | ] |
ontem saí do trabalho e fui à piscina. nadei quase de seguida durante 45 minutos (é fascinante o estado máximo de concentração e relaxamento que consigo atingir enquanto nado a pensar nele) e voltei para casa.
os meus amores pintaram e cortaram-me o cabelo, fizeram-me o jantar, trouxeram cervejinhas e o "les triplettes de belleville", para adormecermos no sofá. a sala fica linda connosco lá dentro.
|
|
|
| reveillon |
[Nov. 11th, 2008|02:58 pm] |
2006. aldeias de trás-os-montes, uma carrinha que só lia cassetes, uma só cassete de reggae, gaitas-de-foles, flautas e pandeiretas, muito frio e muita roupa, viagens aos altos e baixos, velhotes, chouriço e vinho, uma viagem à sanabria, uma noite surreal em zamora, a terra do bairro-alto-concentrado-numa-só-rua-com-u m-metro-e-meio-de-largura e dos after-hours esquisitos. o problema dos grupos de amigos-do-peito compostos por casais é que, quando os casais acabam, os grupos também. saudades. |
|
|
| gosto desta estação |
[Nov. 6th, 2008|12:44 pm] |
| [ | sounds like |
| | farra fanfarra | ] |
hoje a minha companheira-do-coração, exilada em barcelona nos últimos meses, vem prestar-nos uma visita de dois meses para matar saudades. já colei desenhos infantis na parede a dizer "welcome back susie daisy" e hoje vou pôr-me bonita, com rímel e tudo, coisa que não fazia desde que deixei de trabalhar à noite. a casa vai estar cheia, o jantar vai ser daquelas coisas de encher panela à cantina escolar e a seguir vai haver rambóia daquela dos velhos tempos, ao som de james holden no lux, mas com um pormenor dos novos tempos que é o de eu trabalhar amanhã. entretanto o meu amor efectivo, do corpo, da cabeça e das coisas místicas, cresce de dia para dia e trata-me bem demais. de cada vez que diz que sou linda eu derreto-me de igual maneira e quase que o peço em casamento quando ele me passa a mão na cabeça e na nuca daquela forma. já andamos a planear férias juntos e, mais do que isso, ele já jantou com os meus pais. passo assustadoramente vertiginoso, algo incompreensível dado o tamanho modesto da nossa relação, mas que me pareceu natural. a minha vida é boa. não a consigo decompor em coisas grandes e significativas, ou talvez até consiga, mas o que interessa é que todos os momentos se entrelaçam, fazem sentido e provocam em mim uma tremenda sensação de bem-estar. desconfio que os laços que os ligam sejam feitos de simplicidade, como se numa pirosa viagem de comboio tivesse o privilégio de conhecer estações lindíssimas. num filme mais-ou-menos que vi ontem, dizia-se que "a vida é uma viagem e não um destino". |
|
|
| i might be in love with you |
[Oct. 14th, 2008|03:55 pm] |
acho que isto entre nós nunca vai funcionar. mas imagino-me a passar o resto da minha vida contigo.
talvez a familiaridade esteja nas próprias coisas e não na frequência com que nos acontecem. |
|
|
| la vitta è bella (1997), roberto benigni |
[Sep. 11th, 2008|01:08 pm] |
 This is a simple story... but not an easy one to tell. «The game starts now. You have to score one thousand points. If you do that, you take home a tank with a big gun. Each day we will announce the scores from that loudspeaker. The one who has the fewest points will have to wear a sign that says "Jackass" on his back. There are three ways to lose points. One, turning into a big crybaby. Two, telling us you want to see your mommy. Three, saying you're hungry and want something to eat.»
|
|
|
| navigation |
| [ |
viewing |
| |
most recent entries |
] |
| |
|
|